Ontem pela manhã a digníssima Stefanie Klein postou em seu mural do Facebook que a música atrapalha sua vida. Dotado de sinceridade ímpar me vi obrigado a intervir com a seguinte conjectura “as vidas já são atrapalhadas por definição, pelo menos é melhor ter uma vida confusa com trilha sonora…”.
Não que eu pensasse de forma diferente até então, ou nunca tivesse me dado conta disso, a bem da verdade eu sempre acreditei nisso, tanto que aceitei com prazer quando um amigo me convidou para participar como colaborador de seu blog “Life – OST: Viver cansa, mas vale pela trilha sonora”, mas repetir isso me fez avaliar como isso é importante pra mim. Eu acredito que praticamente todo mundo goste de algum tipo de música, mas pra mim isso se tornou minha cocaína. Mais tarde, ontem também, em uma conversa que começou com a versão do Nouvelle Vague de Atoladinha, ou L’Atolerette, e como contraponto a essa manifestação, cômica para quem conhece a versão original e o seu contexto de produção, expus outras obras do Nouvelle Vague, especificamente sua versão de Bizarre Love Triangle, original do New Order, e essa versão é lenta, sem teclados, com um violão e vocal feminino bem calminho, diferente da febre energética original. Eu fui imediatamente questionado sobre gostar desse “tipo de música”, que é recorrente nesse conjunto que por definição (Nouvelle Vague = New Wave) faz uma porção de releituras de outras obras, consagradas cada qual no seu devido período sócio-histórico, só que muitas delas seriam consideradas música de “menininha” por assim dizer.
Primeiramente eu discordo desse tipo de associação (deixo bem claro que tal associação não foi feita pela minha interlocutora de forma direta, eu apenas vi como informação implícita no discurso, o que é perfeitamente natural), música só possui gênero como palavra, palavras são representações fonológicas/gráficas de idéias (eu não vou entrar no mérito da discussão sobre linguagem e pensamento, a versão lingüística do ovo e a galinha) e idéias estão acima da qualificação de gênero, uma vez que a própria qualificação é uma idéia, portanto subordinada a essa condição. Não acredito que exista “música de menininha”. Existem sim discursos voltados para públicos específicos e muitas vezes esses discursos se apropriam de construções musicais específicas para dar sustentação material a mensagem desejada. Muitas vezes não.
No caso específico de Bizarre Love Triangle eu me vejo na obrigação de aceitar que a releitura ficou “melhor” (ou mais coerente) que a original segundo esses aspectos. A letra é um tanto quanto melancólica e casou muito bem com o novo arranjo. Eu entendo que a proposta do New Order, e outros conjuntos de sua época, é justamente uma ruptura entre letra e melodia causando um certo impacto com essa combinação inusitada, mas que a mensagem é captada com mais naturalidade na ultima versão não há como negar.
Fato é que quando questionado sobre gostar desse “tipo de música”, eu passei por cima dessa postulação de idéias, perfeitamente desnecessárias num dialogo despretensioso, e fui direto para a exposição do fato que eu não gosto DESSE tipo de música, eu gosto de música. Sou essencialmente um rockeiro classudo, muitas vezes Easy Rider (no melhor estilo Dennis Hopper), mas eu não me limito a isso. Minha coleção musical tem a opera completa do Richard Wagner, Der Ring Des Nibelungen, e a opera completa são quatro peças (Das Rheingold, Die Walkure, Gotterdammerung e Siegfried), mas essa mesma coleção também possui muito Blues da década de 30, muito Jazz, com direito a 20 álbuns da Ella Fitzgerald cantando songbooks inteiros de Duke Elington, Cole Porter, Harold Arlen, tem também 56 álbuns do McCoy Tiner, muitos deles nem disponíveis em CD, só conseguir porque alguma alma caridosa digitalizou LPs e essa pessoa, mais que ninguém no mundo, merece um abraço. Tenho, ou ao menos conheço boa parte do que foi produzido no mundo do rock, de Yes! a Nickelback, de Peter Frampton a Chris Cornell, mas para a decepção geral tenho também o nacionalmente aclamado e apedrejado Batidão Sertanejo, com o melhor e o pior o Sertanejo Universitário, do Mato Grosso para o mundo.
Eu não consigo de forma alguma dizer que algum desses estilos é melhor que o outro, afinal são coisas diferentes, eu não consigo comparar. Existem estilos que me agradam mais que outros, existem estilos que não me agradam, mas eu sofro de pensar em estabelecer uma relação qualitativa entre estilos musicais (eu meio que já falei sobre isso no primeiro post do ano), só que vou mais além, vou para a frase que concluiu meu raciocínio na conversa que desencadeou esse emaranhado de reflexões: Toda manifestação de arte tem seu valor. Esta ou aquela podem não ter apelo para mim ou para você, mas mesmo nesse caso, mesmo sem esse apelo, elas ainda tem valor. Eu volto ao pensamento de Bakhtin tratando de dialogismos. Mesmo que uma manifestação artística não consiga despertar em mim o que seu criador pensou, eu de alguma forma a vi, digeri e absorvi e ela a partir de então faz parte de toda e qualquer produção minha.
A principal diferença, entretanto, é que cada um de nós é mais influenciado por uns estímulos que outros. Eu conheço minhas capacidades sensoriais e sei que estímulos visuais tem menor influência para mim que estímulos sonoros. Eu como bom homem tosco que sou, tenho o espectro de cores de um cachorro. Eu reconheço basicamente contrastes, e no máximo 16 cores bem definidas. Em outras palavras eu consigo definir as cores de um monitor EGA, mais que isso são inputs sem nome pra mim. Eu sei dizer que dois tons de azul são diferentes? Só se for algo gritante, mas tem tom de azul que chamo de verde e tom de verde que eu chamo de azul. Mas em se tratando de música tem variações tonais que eu percebo e a maioria ignora.
Em uma discussão com meu irmão ele perguntou por que diabos tem baterista que se esconde atrás de uma muralha com 20 tons, 30 pratos, 97 chimbais. Eu não sou baterista, mas consigo especular dois motivos principais, o primeiro é otimização. Eu acredito que em uma bateria composta por 397 peças pelo menos algumas são idênticas em locais distintos, tornando possíveis combinações percussivas que seriam inacessíveis a não ser que o baterista em questão se movimentasse em MACH 5. O segundo motivo que me ocorre é justamente que por mais que muitas peças PAREÇAM idênticas, elas não são, seja pela dimensão ou materiais usados na sua confecção. E cada peça distinta dessas produz um som diferente. Se cada uma das freqüências é 100% perceptível? Não, mas muitas são e algumas pessoas conseguem perceber mais freqüências que outras. Meu irmão, por exemplo, não consegue, mas ele tem um ouvido prejudicado. Ele só concordou com meu argumento porque ele faz engenharia e sabe que qualquer alteração no material ou na dimensão de um instrumento vai alterar a freqüência de vibração, mas se não fosse por isso ele ia me chamar de herege.
Agora pensando dessa forma, se cada detalhe, por menor que seja, vai fazer diferença numa composição, numa forma de expressão, é aceitável afirmar que uma forma é melhor que a outra, mesmo sabendo que cada forma é unica, ainda que composta por formas que a precederam?
Foi refletindo sobre quanto eu, um pobre mortal, consegui pensar sobre esse único tema que eu me dei conta do quanto ele é importante na minha vida. Não é simplesmente que eu tenho trilha sonora pra minha vida, eu preciso disso, eu sou viciado nisso. Eu já tive viagens psicodélicas ouvindo álbuns do Pink Floyd (recomendo o Division Bell) sem nunca ter passado perto de nenhum ácido, chá ou psicotrópico que o valha; eu já tive momentos “bonachão” sentado em uma poltrona com um copo de scotch J&B ao som de John Coltrane com um dos mais brilhantes arranjos de Summertime; eu já passei 10 horas (das quinze necessárias) ouvindo O Anel de Nibelungo do Wagner enquanto pesquisava e digitava incessantemente um trabalho acadêmico; e eu fiz minhas provas de Latin ouvindo as peças em E (mi maior) do Bach, nessa ordem: Prelude, Allemande, Courante, Sarabande, Bourree e Gigue.
Hipoteticamente falando, eu arriscaria dizer que eu conseguiria viver em sanidade se me negassem a fé, se me tirassem os ideais, se me privassem do convívio social, (eu ia colocar sexo nesse ponto da lista, mas eu estou comprovando isso empiricamente, já faz tanto tempo que eu não lembro nem a cor então não poderia entrar como hipotese), mas eu não consigo afirmar, nem hipoteticamente, que eu conseguiria manter a razão se nunca mais conseguisse, se quer, pensar em uma música que fosse.
Quero deixar aqui registrado, em caso de um ultimo pedido, que se algum dia for necessário me isolarem da sociedade me mandem pro lugar que for, e se nem energia elétrica tiver eu sobrevivo desde que tenha um Fonógrafo a manivela e vinís.
Obrigado.
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