Antes de mais nada eu recomendo que, antes de prosseguir lendo o post, você clique no link abaixo e escute a música, ou deixe ela tocando em um loop infinito enquanto você lê, como eu fiz enquanto eu escrevia.
Ontem eu cheguei em casa, depois de passar uma tarde de ócio com uma amiga, com uma necessidade urgente de escrever aqui de novo por vários motivos. O principal foi uma experiência meio que de sinestesia. Essa amiga me mostrou um perfume que ela estava pensando em comprar e imediatamente esse perfume me deu uma imensa sensação de conforto, quase felicidade, enquanto me fazia visualizar cenas nítidas e claras do passado, com riqueza de detalhes. Antes que venha algum troll pentelho me dizer que sinestesia é só quando se misturam dois ou mais dos cinco sentidos eu já adianto, para mim, sinestesia envolve quaisquer planos sensoriais distintos e se pra você, ilustríssimo troll, a memória e nossa percepção da mesma não for um plano sensorial bem definido você precisa rever seus conceitos e começar um processo de “to think out of the box”. Expanda seus horizontes. Digressões a parte foi essa experiência que me fez refletir sobre pequenos prazeres da vida que nós perdemos ao longo dos anos, eu pelo menos perdi.
Antes tudo tinha outro valor, tudo tinha outro sabor. Os perfumes eram mais marcantes, os sabores mais intensos, os sentimentos mais sinceros. O prazer pela vida tinha de fato um significado único e insubstituível. Eu poderia até não saber o que eu queria da vida, mas ainda existia uma esperança inocente de que tudo se resolveria e que cada detalhe valia a pena.
Não dê todo o mérito dessa epifania a simplesmente o perfume. Na verdade tudo isso faz parte de um processo pelo qual eu venho passando nos últimos meses e se intensificou nesses últimos dias. Quinta ou sexta feira deu uma chuva gostosa no final do dia e o cheiro da chuva me fez lembrar das férias que eu passava na praia com minha mãe e meu irmão, ontem teve esse fato pitoresco do perfume e esses eventos, somados a alguns outros que não convém mencionar me despertaram esse anseio de escrever novamente mas eu não sabia como começar e foi então que apagando arquivos antigos do meu HD eu encontrei essa música perdida por lá junto com a partitura e coloquei pra tocar e essa música foi que me deu o click que faltava.
Em 2007 para uma disciplina eletiva da faculdade a professora pediu que nós alunos redigíssemos uma pequena peça e a encenássemos, e uma colega que já tinha umas idéias em mente mencionou que precisava de um homem para encenar a sua peça junto com ela. Eu me candidatei no escuro, sem fazer a menor idéia do que seria já que ela só queria ajuda para a encenação, o roteiro seria todo por conta dela. Foi uma das melhores experiências acadêmicas da minha vida e a peça tratava justamente desses mesmos sentimentos, da nostalgia, da percepção que com o tempo nós acabamos nos esquecendo do valor das pequenas coisas que marcaram a nossa evolução como um simples “bolo de cenoura”. Era esse o nome da peça, a Vanessa escreveu aquilo com uma maestria que quando nós terminamos de encenar a turma inteira que estava assistindo estava aos prantos, eu lembro de gente soluçando, e a encenação terminava justamente com essa música que encaixa perfeitamente para o tema em absolutamente todos os sentidos, título, melodia, arranjo, sentimento.
(Para quem ainda não reconheceu, a música é da trilha sonora do Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain).
Ouvindo a melodia de novo eu me dei conta que o prazer que eu sentia por esses detalhes da vida não sumiu faz tanto tempo assim, é algo recente. Ao me dar conta que eu sentia saudades até do ano de 2007 e de como eu enxergava a vida três anos atrás eu percebi que foi em algum momento nesses últimos três anos que eu algo mudou de fato. Tanta coisa aconteceu tão rápido em três anos, decepção atrás de decepção em todos os planos, sentimental, acadêmico, familiar e de repente eu me dei conta que eu acabei ficando duro antes de chegar aos 30 anos (a palavra mais indicada é rabugento, mas “duro” é mais poético).
Eu não sei dizer o momento exato em que isso aconteceu, ou qual o evento específico que culminou nisso tudo, mas o fato é que eu perdi o prazer pelas pequenas coisas da vida.Eu lembro que antes eu tinha vários planos e hoje eu vivo na inércia dos fatos, eu perdi a ambição. Lembro também que antes eu estava sempre sorrindo e hoje meus momentos alegres são alguns rompantes esporádicos em uma gargalhada aqui ou ali, mas o ar de felicidade plena que me envolvia e fazia as pessoas se aproximarem de mim simplesmente sumiu. Eu antes confiava nas pessoas de maneira incondicional e consciente, por mais paradoxal que isso possa parecer, hoje eu não espero mais nada de absolutamente ninguém, a expressão que eu mais uso para mim mesmo cada vez que alguém faz algo que antes me desapontaria é “I’m beyond the point of caring” e é justamente isso o que mais me preocupa, o fato de eu não me importar. Mais triste que ser triste é simplesmente não ser coisa alguma, triste ou feliz, tanto faz.
Eu sinto falta de todas as coisas que eu já soube dar valor, mas acima de tudo eu sinto falta de dar valor às coisas que ninguém mais valoriza. Hoje em dia parece que tudo é um produto substituível, pessoas são dispensáveis, amigos recicláveis, e ter prazer em viver é luxo. Eu quero de volta o tempo em que os valores não estavam nas cifras, o tempo em que trabalhar e viver formavam apenas uma oração coordenada e não subordinada, o tempo em que formar caráter incluía uma tarde fazendo um bolo de cenoura e não uma lição de como sempre desconfiar de tudo e de todos.
Eu quero o prazer pela vida de volta, j’veux le comptine d’un autre été…


